quinta-feira, 30 de junho de 2011

Macarrão com farofa e feijão

Enquanto comia um prato de macarrão com farofa e feijão comecei a pensar na divisão de classes que envolve todas as coisas. Provavelmente o meu prato é exótico para a classe média, nojento para a alta, e talvez apetitoso para a baixa.

Sob a óptica marxista, as classes apresentam-se sempre com uma dominante e outras dominadas. Quando uma dominada passa a ser a dominante outra surge em seu lugar formando as lutas entre elas. Claro que quando tratamos de classes há possibilidades de locomoção, e é exatamente sobre isso que discutirei.

O strogonoff, este que já foi prato de recepção de convidados, agora é mais um na multidão de delícias gastronômicas rebaixadas. É o prato de domingo da classe média. E com batata palha, por favor. Fico pensando, o que houve com o petit gâteau? Esse que por seu nome francês que na tradução não tem nada de mais –pequeno bolo- já foi sobremesa comida com talheres de prata. Hoje vende seu cremoso sabor em qualquer fast food por cinco reais em pequenos potes transparentes de plástico acompanhados de sorvete de baunilha. O pequeno bolinho passou de gueixa a rodadora de bolsinha assim que saiu dos finos restaurantes e delicatessens para as lanchonetes de comida rápida.

Toda vez que a classe média tenta subir seu status culinário a alta segrega o cardápio e o transforma em médio também. Acho que é para manter a posição. É uma questão apenas de tempo. Toda comida que começa com um status alto tende a diminuir. Vejam o chocolate, no século XVII era uma iguaria apreciada pela nobreza européia, hoje alivia os sintomas da TPM de todas as mulheres pelo mundo, ricas ou pobres. É o que podemos chamar de comida universal.

A culpa disso? Como de todos os problemas no mundo é da globalização, do capitalismo, da industrialização... Que tornam tudo comum. Vejam que as modas de comidas chiques tendem a ser cada vez mais curtas. Comparem o reinado do chocolate com o do petit gâteau. Coisas novas devem surgir para atender a essa demanda desesperada por dinheiro. E onde fica o comer pelo prazer de comer? Junto com a sua aversão às roupas esquisitas que vemos em desfiles de moda. Muito bem escondidos em prol da aparência.

Claro que também existe a corrente de classe alta que gosta de ostentar humildade e nacionalidade. Aquelas pessoas que servem em seu jantar uma feijoada light - isso existe?- em pratos de porcelana, talheres de prata e toalha bordada com fios de ouro. Coisa simples na casa de praia de oitocentos metros quadrados de frente para o mar no Guarujá. Eu prefiro a feijoada com couve, farofa e torresminho da minha avó no prato duralex mesmo. O sabor é outro!

(Stella Araujo)

Um comentário:

  1. gostei tanto do seu jeito de escrever (:

    (e cá entre nós, nada como aquela comidinha básica que muitos chamam de "coisas de pobre", né? Um viva ao macarrão com farofa, feijão e frango assado!)

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