quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Menina no açúcar

Cecília observava as duas formigas que tocavam antenas. Será que voltariam a se encontrar entre tantas outras no formigueiro? Por que a vida é assim: em um momento está lá, no outro não. Eu sempre estarei em mim, mas os outros tendem a desaparecer a qualquer momento. E momentos são tão breves para a memória. Chora-se de saudade por um e depois de dois passou. Cecília esmagou uma formiga que passava bem na sua frente. As outras que seguiam o mesmo caminho pareciam parar para chorar a morte da companheira, mas de alguma forma a assassina sabia que não era isso e não tinha remorso. Matou uma formiga. Ela não sentia nada.
Ser formiga é tão insignificante. “Faz bem para os olhos” dizia Dona Vânia quando o açúcar estava cheio delas. Cecília as engolia. O mundo a engole todos os dias. No fundo sempre teve nojo delas, mas havia uma preguiça de se livrar daquilo, um acomodamento. Talvez o que sempre acreditou ser a superfície seja uma trama de caminhos subterrâneos que levam fundo para uma existência subcutânea. Como uma passagem para algo maior, algo que não se espera dentro de nós. Mas nunca teve a habilidade necessária para escavar a si mesma.
A menina estava intrigada com a trilha que aqueles seres formavam. Uma atrás da outra em um movimento bitolado, como se precisassem bater cartão de presença. Mas para ela a rotina às vezes era uma benção. Por que paixão é coisa humana, sem meio termo, ou constrói ou destrói. É questão de sorte e talvez, quem sabe, um pouco de razão. O mundo não é feito nem de extremos nem de equilíbrio. Na verdade o equilíbrio é feito de extremos intercalados. Não há palavra que descreva essa perfeição. Mas não para as formigas, para elas a questão é ritmo e quantidade. Cecília sempre pegava o mesmo trem, mesma estação, mesmas pessoas...
Ela decidiu andar até o formigueiro e com uma pequena pá começou a cavar a procura da rainha. A casa estava sendo destruída. As moradoras corriam em direções diversas, perdidas. Ela não encontrou o que procurava se afastou do formigueiro e ficou observando. Toda ação tem algo de perpetuo. De uma forma milimetricamente importante aquilo ecoaria em algum pequeno universo. Como na vida de Cecília ecoavam escolhas antigas.
Ela não sentia nada dentro de si, nem o buraco negro que se formava. Ficou perdida depois dos acontecimentos. A menina não tinha rumo nenhum. Sempre dependeu de alguém que a guiasse e no fim das contas Cecília não era nada além de uma formiga crescida.

(Stella Araujo)

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