quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Ciranda do Ninho

Esse amor é passarinho,
Chega assim devagarinho.
Chega e sobe pro telhado,
Fica perto assim do lado.

Faz casa num burburinho.
Pia! Pia! Assim no ninho.
Deu então fruto sonhado
Feliz no lar que havia achado.

Voou pra longe da palha
O alado que ali morava.
Ai! Ai! Que o Senhor me valha!

Santia falta da migalha
Que o morador lhe dava
Com coração em mortalha.

(Stella Araujo)

domingo, 24 de novembro de 2013

Soneto da Liberdade

Subiu no cerúleo mágico do céu,
Soltou faíscas carmim das labaredas.
Tornou-se assim só não mais que escarcéu
De doces e amargas emoções azedas.

Sentiu no vento o leve toque de um véu
Que lhe cobria a face pelas alamedas.
Notava assim apagar o fogaréu,
O triste fim que têm todas as lavaredas.

Queria ser então alado lagarto,
Rastejar e voar com a mesma clareza,
Contudo, mais sentia-se ainda farto:

“Não sou quem quero neste vazio quarto!”
Fugiu de barco e subiu a correnteza.
Deixou essa vida e todas as certezas.

(Stella Araujo)

sábado, 23 de novembro de 2013

Amor francês

Conta-me Vinícius,
Os segredos do amor,
Do drama e da dor.
Explica-me este alvoroço
Que me adoece,
Mata-me pela amargura...
Eu amei.
Ah! que bonito amor!
Chorei todo o sentimento
Como pus de uma ferida infeccioada.
Ele tinha aquele je ne sais quoi.
Irradiava de perfeição.
Sonhei que sonhava com ele,
Dormi abraçada às lembranças.
Acordei em desespero,
trêmula e em suor.
Perguntaram-me com que sonhei
E por que sorria.
Com um simples:Je ne sais pas!
Repliquei.

(Stella Araujo)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Uma barata chamada G.H. Samsa

Essa semana tive um momento G.H, algo Lispector kafkaniano. O que Clarice Lispector, Franz Kafka e eu temos em comum? Baratas!

Todos meus dias são cansativos, mas esse em especial tinha sido o pior. Não tenho certeza se foi segunda, terça, quarta, quinta ou sexta, mas foi durante semana passada. Voltava da faculdade como todos os dias, cheguei perto do portão de casa, puxei a corrente com minhas chaves como sempre, quando vi uma sombra preta correr para um canto escuro, onde as luzes dos postes e dos carros não a alcançavam. No momento não soube distinguir aquela silhueta no escuro das vinte e uma horas da noite, mas quando dei meu primeiro passo em direção à porta ela veio em minha direção. Baratas, Bichos valentes esses! Nunca vi outro animal que corresse em direção ao perigo como elas.

Talvez eu esteja me equivocando ao dizer que ela corria em direção ao perigo. Minha primeira reação foi correr dela e atravessar o minúsculo canteiro vazio próximo à porta que formava um pequeno e débil fosso entre nós. Ela me encarava (eu sei que sim) e eu retribuía o olhar. Por alguns segundos estávamos estáticas esperando para ver quem daria o primeiro passo. Com o tempo percebi que não seria ela e então lentamente me movimentei novamente em direção ao portão. Ela correu e se escondeu no escuro por breves dois segundos e voltou correndo em minha direção. Eu novamente me refugiei atrás do “fosso”.

Durante essa cena deplorável mil pensamentos percorreram minha cabeça. Primeiro lembrei-me de Gregor Samsa, personagem de Kafka que durante o sono se transforma em uma barata no livro Metamorfose. Inconscientemente comecei a cantar “Uma barata chamada Kafka” da banda Inimigos do Rei. Animadamente repetia: “Sim! Vem cá ficar comigo. Sim! Vem, Kafka...”. O segundo pensamento passou por “Paixão Segundo G.H.” da Clarice Lispector. Pensei na personagem comendo a barata e isso me deixou com muito nojo. Por alguns minutos pensei se eu sentiria o gosto e um momento de profunda reflexão me invadiu, ao fim cheguei à conclusão de que sou maluca, mas sentiria o gosto sim. A vida não é tão insossa, e acredito eu, nem as baratas.

Depois desse mirabolante episódio descobri muitas coisas enquanto estava de pé atrás do “fosso” torcendo mentalmente para que a barata decidisse ir embora. Eu como todo ser humano (sim, estou generalizando) tenho medo de pequenas coisas. Eu enfrento grandes desafios todos os dias, mas fui incapaz de ultrapassar uma barata. Todo meu tamanho perto do meu medo injustificado não foi nada. Naquele momento eu era menor que aquele pequeno inseto. Tudo que eu desejava era uma lata de Baygon, mas eu tinha um sapato bem ali. O sapato significava contato, o veneno mata a distância. Fiquei surpresa como a vida tem desses espantos incríveis como diz Ferreira Gullar. Porque nos distanciamos de tudo?

Depois de tudo e lembrando-me da infância, quando Jerry do desenho Tom e Jerry disse: “ Você é um homem ou um rato?”. Perguntei a mim mesma se eu era uma barata ou uma mulher, dei um passo a frente, atravessei o “fosso”, afugentei a barata, abri a porta e fui para casa.

(Stella Araujo)

domingo, 20 de novembro de 2011

Aos pedacinhos

Se me ama, ama assim aos pedacinhos.
Ame minhas orelhas,
Meu jeito estranho de andar.
Os olhos outros já amaram.
Ame meu dedinho mindinho,
Meu dedo médio, anelar
E seus formatos diferentes em cada mão.
Ama assim inesperadamente.
Ame como ninguém costuma amar.
Ame-me quando eu caio,
Ame-me quando eu desafino.
A lucidez todos já elogiaram,
Ame meus desatinos.
Ame-me quando eu estou doente.
Ame-me quando estou chata.
Quando sou feliz todos amam.
Ame-me sem motivos especiais,
Ame-me por me amar demais.
Porque o amor é feito passarinho,
Os afobados espantam.
Ame-me quando estiver longe,
Mas não sufoque o espaço.
Ame-me quando estiver pertinho,
Mas não me enforque com seu abraço.
Ame-me por ser a única assim como sou:
Com esses olhos que te olham
E que vão te amar se você me amar assim:
Aos pedacinhos.

(Stella Araujo)

domingo, 13 de novembro de 2011

Poema

Digo assim sem dizer
O que penso, sinto e vejo
Desse modo paralelo, reto, curto
Digo assim sem dizer que digo
Para você que sente como eu sinto.
Essas palavras espectros.
Um tanto transparentes,
Um tanto inocentes.
Ditas assim sem preocupação
Rápidas, translúcidas, úmidas.
Palavras espelhadas,
Sem cores definidas.
Sem formas conhecidas.
Pequenos "espantos" do meu dia.

(Stella Araujo)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Porta saco plástico para guarda chuva molhado

Hoje acordei com um naco de sangue coagulado impedindo a passagem do ar pelas minhas fossas nasais.

Estou em Brasília, essa cidade seca e que se não fosse pelo lago Paranoá estaria em alguma matéria do Globo Repórter sobre existência de humanos em lugares de clima extremo, logo após a Antártida e o deserto do Saara. Hoje, dia 01 de Agosto, ou seja, ainda estamos na época da seca, de acordo com o telejornal a umidade era de 19% e nem sinal de chuva há muito tempo.

No Rio, tenho mania de andar sempre com um guarda-chuva na bolsa. Esse hábito é uma mistura de “bolsa de mulher tem de tudo” com “ Ih, choveu cabelo encolheu”. Porém, aqui em Brasília entre os meses de Maio e Setembro só os com muita esperança mantêm esse objeto por perto, ou os que usam guarda chuva como guardassol (outro erro na minha vida é a nova regra ortográfica que fez esse estrago com guarda-sol). Mesmo quando nosso bom Deus dá a benção de uma precipitação é sempre uma leve garoa, nada que danifique o cabelo de 90% das mulheres.

Todo esse lenga lenga leva ao real motivo da existência desse texto. Hoje estive No prédio da Embratur, assim que estava saindo avistei uma estrutura metálica estranha e que armazenava vários sacos plásticos transparentes. Fiquei curiosa, aproximei-me só para ficar chocada com a utilidade de tal geringonça. Os sacos plásticos são para por o guarda chuva molhado! Que grande invento esse, talvez até marque um período histórico como a máquina à vapor. Sem falar nos gastos públicos sendo tão bem gerenciados e no impacto ambiental com o plástico sendo finalmente sanado. Um porta saco plástico para guarda chuva molhado... Como não pensei nisso? O velho truque de saco de supermercado não é mais opção.

A emoção estava nas instruções de como guardar o objeto úmido pela chuva que, detalhe, não “ecxiste” em Brasília durante esses meses de baixa umidade, só para enfatizar. Confesso que se não fossem as instruções eu realmente não saberia a serventia de tal invenção. Elas apenas por imagens eram tão eficazes que ignorarei o maldito porta saco plástico para guarda chuva molhado apodrecendo sem uso no corredor da Embratur, para parabenizar o criador das instruções tão delicadamente impressas na estrutura metálica. No fim, elas tiveram mais serventia do que o objeto em si. Parabéns a você que as desenhou, com toda a minha sinceridade de futura advogada.

(Stella Araujo)

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Macarrão com farofa e feijão

Enquanto comia um prato de macarrão com farofa e feijão comecei a pensar na divisão de classes que envolve todas as coisas. Provavelmente o meu prato é exótico para a classe média, nojento para a alta, e talvez apetitoso para a baixa.

Sob a óptica marxista, as classes apresentam-se sempre com uma dominante e outras dominadas. Quando uma dominada passa a ser a dominante outra surge em seu lugar formando as lutas entre elas. Claro que quando tratamos de classes há possibilidades de locomoção, e é exatamente sobre isso que discutirei.

O strogonoff, este que já foi prato de recepção de convidados, agora é mais um na multidão de delícias gastronômicas rebaixadas. É o prato de domingo da classe média. E com batata palha, por favor. Fico pensando, o que houve com o petit gâteau? Esse que por seu nome francês que na tradução não tem nada de mais –pequeno bolo- já foi sobremesa comida com talheres de prata. Hoje vende seu cremoso sabor em qualquer fast food por cinco reais em pequenos potes transparentes de plástico acompanhados de sorvete de baunilha. O pequeno bolinho passou de gueixa a rodadora de bolsinha assim que saiu dos finos restaurantes e delicatessens para as lanchonetes de comida rápida.

Toda vez que a classe média tenta subir seu status culinário a alta segrega o cardápio e o transforma em médio também. Acho que é para manter a posição. É uma questão apenas de tempo. Toda comida que começa com um status alto tende a diminuir. Vejam o chocolate, no século XVII era uma iguaria apreciada pela nobreza européia, hoje alivia os sintomas da TPM de todas as mulheres pelo mundo, ricas ou pobres. É o que podemos chamar de comida universal.

A culpa disso? Como de todos os problemas no mundo é da globalização, do capitalismo, da industrialização... Que tornam tudo comum. Vejam que as modas de comidas chiques tendem a ser cada vez mais curtas. Comparem o reinado do chocolate com o do petit gâteau. Coisas novas devem surgir para atender a essa demanda desesperada por dinheiro. E onde fica o comer pelo prazer de comer? Junto com a sua aversão às roupas esquisitas que vemos em desfiles de moda. Muito bem escondidos em prol da aparência.

Claro que também existe a corrente de classe alta que gosta de ostentar humildade e nacionalidade. Aquelas pessoas que servem em seu jantar uma feijoada light - isso existe?- em pratos de porcelana, talheres de prata e toalha bordada com fios de ouro. Coisa simples na casa de praia de oitocentos metros quadrados de frente para o mar no Guarujá. Eu prefiro a feijoada com couve, farofa e torresminho da minha avó no prato duralex mesmo. O sabor é outro!

(Stella Araujo)

terça-feira, 28 de junho de 2011

Saúde, qualidade de vida e disposição

Nunca confiei muito nessas barrinhas de cereal com chocolate, sinto como se estivesse comendo um Kinder Bueno.

Sofrimento recente na humanidade se comparado aos seus milhares de anos, a dieta – nova forma de autoflagelação- expande seus preceitos em nosso mundo das maneiras mais distintas. Seja no papo com a colega, nas revistas desocupadas, ou mesmo no imaginário de loucas que acham que comer apenas salsicha durante um mês vai lhes dar aquele corpinho que será hit nesse verão – e em todas as outras estações, diga-se de passagem.

Até mesmo eu, pessoa tão racional, consciente, atenta às ideologias que o mundo nos impõe, caí nessa onda. De manhã shake, de tarde alface, de noite shake , água está liberada. Isso não é vida! Para que porcaria de função eu tenho dentes?

Sem falar nos exercícios físicos. Predadores no geral correm para caçar suas presas. Nós humanos no máximo tiramos nossa bunda do sofá para pegarmos a lasanha congelada no freezer, ou colocar uns nuggets no microondas –cozinhar é coisa do passado. A humanidade evoluiu tanto que agora reproduzimos na academia a vida selvagem. Não consigo imaginar leões correndo no mesmo lugar para manter o físico, ou passando em algum drive thru para pegar sua caça.

Algum crítico dirá: “Somos animais racionais!”. Claro que somos, mas não deixa de ser engraçado ver uma pessoa correndo no mesmo lugar sobre uma esteira. Se pararmos para pensar parece uma pegadinha, assim como falar ao telefone me dá a impressão de solidão, mas isso é assunto para outra crônica.

Acho engraçados os que entram na academia e dizem: “Eu quero saúde, qualidade de vida, ter mais disposição. Por isso estou aqui”. Se eu fosse instrutora dessas academias sempre riria sozinha dessas pérolas. Quem achamos que enganamos quando dizemos que vamos malhar para termos qualidade de vida? Tudo mundo sabe que mulher malha para ficar gostosa, homem para ficar bombado e os dois para não serem gordinhos.

Mas se vocês querem saber eu não culpo as mulheres. São tantas as pesquisas que dizem que está faltando homem no mundo que até eu estou pensando em fazer minha matrícula na academia aqui do lado de casa. Claro que não direi o meu objetivo ao instrutor, direi apenas que quero qualidade de vida... E no fim das contas, estar habilitada para esse mundo competitivo e selvagem dos relacionamentos conta como qualidade de vida não conta?

(Stella Araujo)

domingo, 26 de junho de 2011

Ode aos meus pés

Todos têm manias estranhas. Elas são quase requisitos para que sejamos considerados pessoas normais. O esquisito é ser normal demais, bom demais, nerd demais...

Entre tudo o que eu poderia compartilhar, escolhi escrever sobre meus pés. Algum leitor perdido por aqui pode perguntar: “Por que sobre os pés?”. Não, meu querido, esse não é um espaço para podólatras. Mesmo o texto sendo sobre esse amor que tenho por meus pés, isso não é um fetiche. E que fique claro que esse amor se restringe apenas aos meus pés e de mais ninguém!

Quando eu tinha catorze anos uma conversa com um amigo de meu pai mudou minha vida. Ele estava contando sobre como conheceu a esposa e como tinha se apaixonado por ela. Ele disse que os sinos realmente badalaram quando ele viu os pequenos, curvados, macios, cuidados, com dedos proporcionalmente encaixados, unhas quadradinhas e levemente curvadas, sempre esmaltadas e cutiladas, pés de sua atual esposa. Aquilo me deixou curiosa, principalmente por ter aquele natural pensamento de como os pés são esquisitos, geralmente julgados como sujos, e como costumam se esconder em tênis escuros e úmidos propensos a todo tipo de fungos.

A partir daquele dia não fui capaz de usar nem mesmo uma havaiana sem estar com os meus pés muito bem feitos. Existe uma aura de sedução sobre meus pés que tenho a impressão que apenas eu vejo. Posso conquistar o mundo apenas usando esmalte renda com batida de coco. Quando pinto de francesinha e uso um peep toe nada pode ser mais sexy. Até porque, a pequena abertura na frente de um peep toe é o novo decote... Mostra apenas o necessário.

Quem precisa de lipo, silicone ou peeling? Vá a um salão de beleza de confiança, faça as unhas, e sinta o poder que emana dos seus pés.

(Stella Araujo)

domingo, 22 de maio de 2011

Empatia

Tenho sentido o frio da natureza
Deitada na minha cama,
Enrolada no cobertor.
Tenho chorado por amores
Que vejo apenas no televisor.
Tenho rido de piadas
De personagens de meus livros.
Tenho amado e odiado as letras,
As únicas que estão sempre comigo.
Tenho suspirado por quem não existe
Por ser de outro e não meu.
Tenho me cansado de discussões
Em que meu nome nunca apareceu.
Tenho sentido o ar rarefeito
Das montanhas que não escalei.
Tenho sentido as dores do parto
Do filho que não é meu.
Tenho sentido o medo
Dos terrores das imagens.
Tenho casado com os noivos
De outros casamentos
Que vi apenas de passagem.
Pensamentos!
Minha vida em pensamentos...
Que medo é viver no real ordenamento
Desse mundo que a maioria nunca conheceu.

(Stella Araujo)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Metáfora

Os olhos são a janela da alma
E dentro deles existem
Olhos que vêem
Através da janela da alma,
Que vêem através da janela,
Que vêem ad infinitum
Através da janela.
Olhos que vêem no escuro
A transfiguração.

(Stella Araujo)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Trilicidade

Deve haver algo
Entre a tristeza e a felicidade.
Algo que caracterize equidade,
Algo justo como se propõe o filósofo.
Resolvi nomear esse sentimento:
Trilicidade.
A terça parte,
Não em hierarquia,
Mas em descobrimento,
Pois na ordem natural
O homem descobriu a felicidade,
Tropeçou nela
E descobriu a tristeza.
E hoje eu,
Grande navegadora de mim,
Descobri que sou também triliz.
Não é algo que caiba em verbete,
Se sente e pronto.
Nenhum sentimento cabe no dicionário,
São do tamanho do mundo.
Hoje estou triliz.

(Stella Araujo)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Fim

Meu corpo queima ao sabor dos sonhos.
Meus pensamentos concretizam-se internos.
Quando eu, querido que me lê, deixar meu corpo,
Pois sou muito mais esse poema que carne.
Quando não mais for residente deste casca,
Essa que me limita e me adoece.
Faça da metáfora fato!
Queime-me e faça-me pó.
Sou eu quando meus pensamentos estão em mim.
Quando esses pensamentos,
Lagartas em minha mente,
Tomarem asas e voarem coloridos
Queime-me leitor de mim!
E então serei como a página queimada
Que não mais existe,
Mas que já teve a mensagem lida.
Jogue-me no ar,
Que como Deus não vejo,
Mas sinto me tocar.

(Stella Araujo)

terça-feira, 5 de abril de 2011

A sete palmos do chão

Como fogo queima ao céu,
Mas não da terra desliga
Com esse coração briga
O eterno mausoléu.

A esquife, velha amiga,
Dos sonhos é casitéu.
Leva de mim a fadiga,
Para ganhar meu troféu.

Nesse rico cemitério
Onde enterrei os meus sonhos
Escolha não há critério:

Nos epitáfios pidonhos
Nessas palavras tão sério
Morreram todos inconhos.

(Stella Araujo)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Transitório

Se sei o que é o tempo?
Sei, mas não me pergunte.
Tempo se sente não se conta.
Grande erro são os relógios.
Tempo é coisa íntima da gente.
O tempo passa, mas para quem?
A beleza passou,
O amor passou,
A alegria passou,
Mas o tempo?
Ah! Esse ficou.
Desceu por meus cabelos brancos,
Mas ainda em mim.
Esperto prendeu-se a alma,
Bem pertinho assim.
O tempo me deu essas marcas.
Essas rugas pelo rosto envelhecido.
Deixou meus olhos opacos,
Quase cegos, mas ainda amigos.
O tempo não passou,
Eu é que passei.

(Stella Araujo)

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Forma

Nunca pensei em escrever sonetos.
Prefiro descrever esses momentos.
Sempre fui poeta sem os pudores.
Divirto-me com as palavras livres.

Meus poemas são pássaros errantes.
Em revoada levantam temores.
Eles giram poeira turbulentos.
Porém sempre a mim hão de ser indômitos.

Os pensamentos sublimam dos cantos.
Vem de minha mente traçar encantos.
Flutuam no papel sempre tão leves.

Então quando me ouso perguntar deles
Aparecem com ar desses molambentos
Sem métrica ou conteúdo, rebeldes.

(Stella Araujo)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Conversas

Não quero te trair Amor
Mas tu trais os incautos
Sendo dito assim sem mas...
Não diga que a culpa é de outro.
Se assuma como traidor...
Sim Amor,
Escutei tuas promessas,
Mas não caio mais na tua conversa.
Encontrei em outro coisa melhor.
Ele está comigo o tempo todo.
Não me abandona, não me trai.
Sou só dele e ele é só meu...
Não, não acho que o conheces.
Não faz parte de teus amigos.
Some com tuas juras!
Só preciso desse novo agora.
E se quiseres saber o nome...
Não, não me importo em dizer
Que seu nome é solidão.

(Stella Araujo)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ironia

Belas flores roxas sobre a terra.
Que perfume exalam as azaléias!
Quis viver num jardim repleto delas
Mas o mundo é de concreto
E não de terra.
As flores sorriem no odor suave de suas pétalas.
Mal eu viro e o vento acaricia a pele delas.
Que cor é a cor de suas astes!
E verdes!
Tão verdes são as folhas na lapela.
Espinho não vi nessas flores.
Nem se esconderam,
Nem arrancados foram.
Perfeição são essas flores
Que jazem junto à lápide
Do recente morto abaixo delas.

(Stella Araujo)

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Menina no açúcar

Cecília observava as duas formigas que tocavam antenas. Será que voltariam a se encontrar entre tantas outras no formigueiro? Por que a vida é assim: em um momento está lá, no outro não. Eu sempre estarei em mim, mas os outros tendem a desaparecer a qualquer momento. E momentos são tão breves para a memória. Chora-se de saudade por um e depois de dois passou. Cecília esmagou uma formiga que passava bem na sua frente. As outras que seguiam o mesmo caminho pareciam parar para chorar a morte da companheira, mas de alguma forma a assassina sabia que não era isso e não tinha remorso. Matou uma formiga. Ela não sentia nada.
Ser formiga é tão insignificante. “Faz bem para os olhos” dizia Dona Vânia quando o açúcar estava cheio delas. Cecília as engolia. O mundo a engole todos os dias. No fundo sempre teve nojo delas, mas havia uma preguiça de se livrar daquilo, um acomodamento. Talvez o que sempre acreditou ser a superfície seja uma trama de caminhos subterrâneos que levam fundo para uma existência subcutânea. Como uma passagem para algo maior, algo que não se espera dentro de nós. Mas nunca teve a habilidade necessária para escavar a si mesma.
A menina estava intrigada com a trilha que aqueles seres formavam. Uma atrás da outra em um movimento bitolado, como se precisassem bater cartão de presença. Mas para ela a rotina às vezes era uma benção. Por que paixão é coisa humana, sem meio termo, ou constrói ou destrói. É questão de sorte e talvez, quem sabe, um pouco de razão. O mundo não é feito nem de extremos nem de equilíbrio. Na verdade o equilíbrio é feito de extremos intercalados. Não há palavra que descreva essa perfeição. Mas não para as formigas, para elas a questão é ritmo e quantidade. Cecília sempre pegava o mesmo trem, mesma estação, mesmas pessoas...
Ela decidiu andar até o formigueiro e com uma pequena pá começou a cavar a procura da rainha. A casa estava sendo destruída. As moradoras corriam em direções diversas, perdidas. Ela não encontrou o que procurava se afastou do formigueiro e ficou observando. Toda ação tem algo de perpetuo. De uma forma milimetricamente importante aquilo ecoaria em algum pequeno universo. Como na vida de Cecília ecoavam escolhas antigas.
Ela não sentia nada dentro de si, nem o buraco negro que se formava. Ficou perdida depois dos acontecimentos. A menina não tinha rumo nenhum. Sempre dependeu de alguém que a guiasse e no fim das contas Cecília não era nada além de uma formiga crescida.

(Stella Araujo)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Garganta

Cecília desde recém nascida tinha o estranho hábito de engolir as coisas. Tudo começou quando engoliu as bolinhas internas de seu chocalho. Evoluiu quando ela engoliu o sapatinho de uma de suas bonecas, mas nada foi tão desafiador como quando sua mãe disse: “Engula esse choro menina!” E assim ela o fez. Aquele momento talvez explicasse a curiosa carreira de engolidora de espadas da menina. Ela passou a engolir a tristeza, a dor, a mentira e se esqueceu como era viver com aquilo diante de seus olhos. Tinha que conviver com a digestão lenta daquele ácido.
O interessante era que Cecília acreditava que para aliviar seus problemas de asia precisa de algum remédio básico, aprendeu isso em uma aula de química. Por algum motivo as pessoas acham que ácidos e bases são como “yin e yang”, amor e ódio, mas ambos podem queimar, corroer, e isso os dá algo em comum.
Ela sempre gostou de ácido acético em suas saladas, mas algumas coisas simplesmente não descem, sufocam como uma espinha de peixe que prende na garganta. E sua avó dizia: “Engole essa farinha minha filha”. A farinha nunca funcionava direito, por mais que a espinha seguisse seu caminho natural, a garganta sempre ardia. Tem coisa que desce rasgando. Alguns sentimentos ela engolia como uma dose de cachaça, mas aquela lerdeza dos fracos de bebida ela nunca sentiu, talvez por que faltasse alguma coisa a ela.
Ela gostava dos sinais de corrosão e erosão. Sempre achou que aquilo dava um ar soberano. Talvez seja assim com as pessoas: algumas marcas as fazem quase heróicas, isso se conseguirem suportar. Não é uma questão de força, mas do ácido que você engoliu, algo a ver com o número de hidrogênios... Vai saber! Mas química nunca foi seu forte, nunca aprendeu a nomenclatura dos ácidos e bases. Fazia-se de menina esperta. Engoliu as notas vermelhas durante todo seu ensino médio e tanta falta de preocupação com a escola não a tornaria uma advogada ou médica.
Ela apresentava-se no circo Grand Maestrum todos finais de semana. As cadeiras se enchiam para assistir à grande engolidora de espadas. O resto da semana era livre e todo esse tempo e liberdade têm seu preço. A maioria das mulheres sofre do mal da boca grande, Cecília com certeza estava entre elas. Falar demais nunca é bom. A mãe dela sempre dizia: “Minha filha, Deus te deu dois ouvidos e uma boca. Escute mais e fale menos”, mas a menina sempre respondia: “Minha boca vale por três ouvidos, fui feita para falar mais”. Nessa de falar mais sempre acabava engolindo desaforos, não que fosse difícil para ela engolir esse tipo de coisa, estava mais em sua natureza do que respirar.
Essa vida de engolidora não era das mais incríveis, mas não era tão sem graça. Quantas pessoas conseguem engolir espadas ou mesmo um desaforo? Havia uma habilidade incomum, mas desinteressante nela, como enrolar a língua, ou encostar o dedo nas costas da mão. As pessoas não dão muito valor. Ela mesma nunca se importou com isso, engoliu todo o orgulho que tinha.
O tempo passa e não perdoa ninguém, um dia todo mundo envelhece, mas um dia é muito indefinido nesse caso. Cecília envelheceu com 30 anos. Engolia as dores, as doenças, os cabelos brancos, mas nada saia dela. Na verdade nada nunca saiu. Ela estava cada vez mais cheia de tudo. Foi com 40 anos que o mundo a engoliu e ela não suportava mais engolir nada. Foi tudo tão rápido, em um vap foi engolida pelo mundo, enquanto ela tentava o engolir. Alguém disse a ela que ele estava encolhendo, não passa de bobagem! Tentando engolir tudo vomitou a si mesma em uma sarjeta. A água passou e lavou aquele pouco material ácido e nojento, meio digerido, meio não. Não se podia esperar que o mundo coubesse em seu estômago, mas com certeza aquele era um meio de encher o vazio que havia nela.

(Stella Araujo)

domingo, 9 de janeiro de 2011

À pés livres

Visto-me de projetos e ocupações,
Mas às vezes preciso da minha mente nua,
Desvairada e devassa.
Por mais que por fora
Eu ainda esteja de terninho e meia calça.
Por isso sempre escrevo vestida,
Porém descalça.

(Stella Araujo)

sábado, 8 de janeiro de 2011

Aquarela

Para alguns em preto e branco,
Para outros cor de rosa,
Sempre fui de matizar.
Assim foi minha vida:
Sai da maternidade de vermelho,
Céu azul, sol dourado.
Quinze anos em noite negra
De céu estrelado.
Casamento de branco,
Lua de mel azul e rosado.
Raramente havia dias
Que fossem acinzentados.
Quando procurava paz
Procurava um campo esverdeado.
E na minha casa amarela
Guardava em esquecimento
O que tinha desbotado.

(Stella Araujo)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Jogam-se búzios

Era uma tarde ensolarada. Mariana e Cecília passeavam por uma praia contando suas histórias e amores. Eram amigas de longa data, tanto que compartilharam chocalhos. Foram passar as férias juntas em Angra dos Reis. Cecília falava sobre seu novo namorado, homem de família, trabalhador, alto, moreno, bonito; o desejo de qualquer mulher. Mariana escutava paciente e feliz com orgulho de irmã.
Enquanto as duas passavam por mais um desses muros rabiscados e cheios de papéis colados avistaram um amarelado, meio envelhecido pela chuva e pela maresia e que dizia: “Jogam-se Búzios”. A maneira que estava escrita impressionou Cecília. Ela acreditou que talvez a pessoa tivesse algum conhecimento, que fosse ao menos sensata. Mariana logo deu a ideia:
- Não custa pelo menos conhecer. Uma consulta só não mata.
Cecília ainda estava intrigada com o cartaz tão corretamente escrito. Aceitou ir conhecer a tal “Mãe Lucrécia”. O endereço estava no canto inferior da folha meio apagado, mas ainda era discernível. Era em uma rua próxima, então subiram a estradinha da praia de onde se avistava a ilha da igreja.
O sol estava cada vez mais forte e mais próximo do meio dia. Uma brisa salgada batia no rosto e deixava as amigas com aquela sensação pegajosa, mas gostosa, que o vento marinho causa na pele. Cecília seguia pensando agora no que mãe Lucrécia diria sobre seu futuro: se casaria com seu namorado Marcos, se teria filhos com ele, se teria uma vida confortável. Eram tantos “se” que nem reparou no caminho. Andava apenas com a noção de estar próxima a Mariana e foi seguindo-a distraída, quando deu por ela estava na frente da casa do endereço. Na frente havia a mesma frase do cartaz: “Jogam-se búzios”.
A casa era meio antiga, uma mistura de madeira e alvenaria bem gastas. O lugar tinha um jeito esquisito, como se muitos segredos estivessem escondidos por detrás das tábuas de madeira e sob o chão de terra compactada. A porta estava aberta, quase escancarada, como se as convidasse a entrar. Havia um grande corredor, iluminado apenas por poucos raios de sol que atravessavam as janelas velhas e opacas. No fim do corredor um cômodo se abria não muito grande, mas suficiente para uma mesa simples de madeira com uma toalha vermelha e azul estendida sobre ela. Uma cortina carmim deixava toda a sala à meia luz. Num sofá preto desgastado um gato marrom se espreguiçava com olhos avermelhados e atentos.
Em outro canto da sala havia uma mulher alta e grandalhona, com olhos pretos e marcados com muita maquiagem. Seus cabelos pendiam em ondulações bagunçadas e disformes pelos ombros até quase seu cotovelo, usava um vestido que um dia talvez tenha sido de um amarelo vibrante, mas de alguma forma a cor parecia ter desbotado quase toda. Quando perguntou o que queriam a voz parecia quase profética. Era uma mulher estranha. Era Lúcrecia.
Cecília parecia indiferente ao clima do lugar. Isso afetava mais Mariana que estava assustada.
- Vi um cartaz na rua, vim saber meu futuro.
Ela parecia determinada e totalmente alienada ao lugar. A outra permaneceu calada atenta ao gato marrom, às vezes disfarçava olhando objetos aleatórios. A cigana não disse mais nada. Sentou em sua cadeira, pegou seus búzios, jogou sobre a mesa e os analisou. O barulho das conchinhas batendo sobre a madeira assustou Mariana que se encolheu como se quisesse manter o silêncio. Cecília olhava atenta querendo ver ali as respostas de sua vida. A mulher apenas observou altiva as conchas por dez segundos, levantou a cabeça e olhou direto nos olhos de Cecília:
- Vejo aqui que você irá se apaixonar.
- Eu já estou apaixonada senhora.
- Eu não estou falando do presente, estou falando do seu futuro. É um homem de cabelos claros, olhos verdes, de estatura média...
- Mas esse não é...
Lucrécia parou e olhou rapidamente para a menina com ar de quem não gostava de ser interrompida. Parecia estar contando até dez antes de voltar a falar. Enquanto isso ela olhava fixamente para o gato marrom no sofá preto logo atrás de Cecília. Após o momento de silêncio ela voltou a falar com aquela voz grave demais para uma mulher:
- Você se casará com esse homem e será muito feliz. Vocês terão dois filhos e ele ganhará muito dinheiro. Você morará em um lugar alto e com uma vista bonita. É tudo o que eu tenho a te dizer.
Cecília permaneceu quieta por alguns minutos, estava digerindo a informação. Então não era Marcos o homem que estava em seu destino, isso a deixou angustiada. Lucrécia levantou da cadeira em um movimento firme e com um gesto mandou que Cecília fizesse o mesmo. A mulher perguntou a Mariana se ela também consultaria os búzios e a menina balançou a cabeça negativamente. Pagaram os serviços da cigana e voltaram para casa. No caminho as meninas não disseram nada. Mariana ainda estava muito assustada e Cecília muito pensativa.
No dia seguinte as duas voltaram para suas casas no Rio de Janeiro no bairro da Tijuca. Cecília tinha o hábito de correr na pista próxima ao Maracanã. Estava correndo quando de um modo inesperado um galho de uma das árvores partiu e caiu bem na sua frente, o que a fez tropeçar. Logo atrás vinha um homem loiro, de estatura média, olhos verdes e bonitos correndo. Ele parou para ajudá-la. Ela sentiu que aquilo era um sinal. Ele pareceu interessado pela menina que logo lhe passou seu celular. Ele a deixou em casa, e assim que pode ela correu para o telefone e ligou para Marcos, seu namorado. Pediu que ele viesse vê-la, não podia terminar o namoro pelo celular. E assim o fez logo que ele sentou no sofá cinza de seu apartamento. Explicou que o amor tinha acabado e que a relação deles não iria longe de qualquer maneira, mas no fundo Cecília sentia uma dorzinha no peito, ela amava Marcos.
A menina começou a sair com Luiz, o corredor do maracanã, e seis meses depois já estavam casados. Tudo parecia estar acontecendo como a cigana disse que seria até que Luiz, que trabalhava como investidor, perdeu tudo em uma crise financeira. Eles foram morar no Complexo do Alemão, em um dos pontos mais altos da favela. A vista de lá era muito bonita, o problema era subir a ladeira. Luiz morreu vítima de uma bala perdida durante um tiroteio, deixando Cecília com três filhos órfãos de pai e com o quarto ainda na barriga. A vida ficou complicada, mas Cecília conseguiu criar os filhos trabalhando como empregada doméstica. Ela nunca mais se casou.
Marcos ficou chateado com o fim repentino do namoro com Cecília. Ele buscou apoio em uma amizade com Mariana que acabou se afastando da amiga depois que ela se casou com Luiz. Os dois descobriram um tipo de afeto mais profundo e começaram a namorar. Entre amizade, namoro, noivado e casamento foram dois anos. Eles são muito felizes e tiveram um filho. Marcos ajudou sua empresa a passar sem prejuízos pela crise e foi promovido ao cargo de vice-presidente. Ele e Mariana moram na Barra da Tijuca de frente para o mar e estão planejando agora o nascimento do segundo filho.

(Stella Araujo)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Querida Magnólia

Da janela eu via uma mulher.
Dona Magnólia, como costumei chamar.
Come sopa de colher
Por que não tem mais do que se alimentar.
Sorri um sorriso sem estrelas
Quando me passar pela calçada,
Mas ainda mostra um luzir de felicidade
por finalmente ser notada.
Tem cara de mãe,
Mas é sem filhos.
De certo é filha,
Mas não tem mãe.
Vive só sob a marquise da avenida
Pedindo somente um pão.
Ontem choveu muito.
Escutei o tossir de Magnólia.
Chorei pensando nela
E escrevi sua história.
Uma página apenas,
Escrevi o que sabia.
Ela não era ninguém
Para o povo que ali vivia.
De manhã havia um saco preto na rua.
Um grande pacote fúnebre.
E a única coisa que consegui pensar foi:
Por favor, que não seja a querida Magnólia.

(Stella Araujo)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Processos de formação

Fui desamada.
Como isso pode ser antemaginado?
Depois de tanto amor abnegado,
Um amor tão justaposto.
Mas esse amorismo doente
Só comprova a patologia de minha mente.
Sempre fui amorista.
Que profissão terei agora?
Sempre dependi de derivações...
Prefixos e sufixações.
Hoje sou primitiva radical.
Para ser feliz
Não dependo de morfemas.
Ninguém além de mim.

(Stella Araujo)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Esperanças

Ismália, volte já para cá!
Esses teus sonhos e loucuras
Jamais vão se concretizar.
Volte à terra que é teu lugar.
Jamais houve humano
Que sem asas soubesse voar.
Saia de tua torre que te prende.
Tire do alto da janela
Teu corpo que pende.
Nenhum sonho é da gente.
Ponha no chão teus pés
E nunca mais se tente.
Esqueça teus desvarios
Antes da última entente.
A lua não te aceita,
o mar não te entende.
Lembre-se do que você semeia
E tire já os pés da areia.
Não se perca nas ondas,
Nem na voz da sereia.
Não desista da peleia.
Não siga com os olhos
Esse moinho que devagueia,
Pois ele vai empurrando
Essa tua boca cheia.
O mundo gira por si só todo tempo.
Não há nada que você possa fazer
para seu próprio salvamento.
A loucura te toma,
meu choro me destrói.
Lá se foi mais uma
Para o céu de todos nós.

(Stella Araujo)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Ruas que passam

Hoje eu andei por essa rua que já foi minha.
Onde ladrilhei todas minhas histórias de infância.
Pedrinhas de brilhante que cintilam apenas na memória
E pelo asfalto que corri quando criança.
Nessa rua tem uma dormideira
que bocejando me cumprimentou.
Meu toque a fez voltar a dormir
E com um novo sonho me deixou.
Daqui a cem anos volto para acordá-la.
Não sei que novas esperanças terei até lá.
Lembrei do monte que avistava dali
Quando tantas vezes em solidão me encontrava.
Sentei na calçada de cimento
Onde me machuquei e lamentava.
Dona Maria ainda mora aqui,
Olhou-me curiosa enquanto eu passava.
O sol ainda é o mesmo,
A casa não mudou,
Mas há algo diferente,
algo que não se inteirou.
Sinto no peito o deslocamento
que a distância proporcionou.
O que era saudade agora já acabou.
Já não é mais a minha rua essa que passou.

(Stella Araujo)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Locomotivas pelo mar

Diz o que tem pra me dizer,
Mas por favor diz rapidinho
Que o tempo é passarinho
E é difícil de ceder.
Diz o que tem pra me dizer,
Pois o trem já vem zumbindo,
E eu aqui nesse nimbo
Não sei mais o que fazer.
Diz o que te atormenta
Que eu não vou esquecer.
Talvez o que te tenta
Venha de mim tentar você.
Diga logo que o apito grita
E o sino salpica adeus pelo ar.
Nada disso fica
Só as palavras bonitas
Que espero você contar.
Agora o trem já se achega
E você nem para chegar.
Venha que sem tua imagem
O vazio será a última desse lugar.
Não posso refletir teus olhos
Por que você não vai chegar.
O tempo que já passou
Para ninguém retornará.
Agora já é tarde para lamentar.
O trem já está partindo,
Se preparando para zarpar.
Navegará pelas águas do choro
De quem você provou não amar.


(Stella Araujo)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Lembranças do jardim etéreo do sentimento

Fotografias caem do céu,
Como uma tempestade de lembranças.
Flashes rápidos de uma vida inteira,
Desde meus tempos de criança.
Impressões de apenas mais uma passageira
Desse mundo que gira e não descansa.
E que escreve novos versos no infinito
Como música para uma dança.
Versos e fotos de uma peça que está durando toda uma vida.
Uma atriz de dramas, comédias e ação.
Chuva cai e escorre por meu coração
De Porcela, frio e sem expressão.
São lágrimas então?
A chuva cai e bate nesse solo que parecia tão seco.
A chuva entra pelos poros desse rosto de areia e gelo.
A chuva fez nascer rosas desse solo podre de esterco.
A chuva faz nascer da semente um mundo inteiro.

(Stella Araujo)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Reflexão sobre o Eu
















Antes eu via o espelho.
Um que ficava no fim do corredor.
Com apenas um olhar ele dizia tudo.
Mas agora tudo que eu vejo
é uma parede branca.
Eu olho pra ela,
mas ela não olha pra mim.
Onde eu estou?
Onde está aquela menina que sorria pra mim?

(Stella Araujo)

...Você

O fel que amargou teus lábios
é deletério para o meu coração.
Palavras ditas, soltas e sem razão,
buscam agora o meu perdão.
Não digo que foi ruim,
nenhuma palavra pode descrever um fim.
No fim das contas os fins não existem.
E no fim de uma promessa
restam os recomeços.
Sonhos simples e modestos,
buscam nessa sesta
a volta do que ,nesse ínterim,
é mais importante para mim...

(Stella Araujo)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Suplício de Tântala

Tão perto dessa fruta rosa,
mel dessa árvore frondosa,
sobre o ramo mais alto disposta
afastada pelo vento que vem da costa
desse imenso mar de rocha.
Vento frio sobre a tímida moça
que nas rochas de teu coração repousa.
Maldição da saciação amorosa.
Sou Tântala ainda disposta.
Que busca valente, mas não alcança
a personificação de seu sonho de criança.
Afrodite que deu teu coração a outra.
Deixou-me no suplício de quem busca e não alcança.
O meu foi posto na elísia tristeza
entre o paraíso do submundo e a certeza
de que mesmo com dedicação e destreza
sofrerei da fome de maior grandeza.

(Stella Araujo)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Partícula atrativa

Se ele Não me ama
acabou a flexibilidade.
O Não me puxa,
O Não me atrai.
Que grande apelo
tem o Não sobre mim!
Se Quando me ama
corro atrás do tempo,
mas perco as escolhas.
O Quando me define.
Que grande apelo
Tem o tempo sobre mim!
Não estamos no fim
muito menos no começo.
Sou pronome pessoalmente teu.
Você foi conjugado para mim
na primeira pessoa
de teu singular modo de ser,
Mas que grande apelo
tem você sobre mim!

(Stella Araujo)

sábado, 25 de setembro de 2010

Recomeçar


O mundo gira e a vida passa.
Tudo a flor de minha pele.
Tudo arrancando minhas pétalas.
Tudo murchando meu corpo.
Tudo me trazendo para algo novo.
Pequenos erros cortando a pele,
desfazendo as proteínas.
Reconstruindo pelos aminoácidos
minha nova vida.

(Stella Araujo)

Osmose


Transpirando palavras,
excretando sentimentos.
Calafrios pela pele
pelo que está aqui dentro.
Não por não servir.
Não por querer esquecer.
Mas meu corpo precisa
de um equilíbrio osmótico.
Por isso vou escrever.

(Stella Araujo)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

300 Centésimos


Surgi contando os meses,
cresci riscando os dias,
morrerei me prendendo às horas.
Os anos não passam,
tudo acontece em três segundos:
em um nasci,
em dois cresci,
em três...

(Stella Araujo)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Sopro de saudade



Assim
assoprou
sossegado
e sem pensar.
Cismava na saudade
que o vento assobiou canções.
Sibilaram-se também as memórias
que o querido vento assobiador trazia.
Silêncio e suspiros calados sobem pelos sapatos
sucumbindo e salpicando pela face escura da noite.
Mas agora o girassol já se curvou ao sol trazendo a tarde.
Digo adeus ao que o vento levou e das memórias de saudades.

(Stella Araujo)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Macetes do amor


Se a fórmula do amor
for tão complicada e inútil
quanto as de física e química que aprendi,
amarei por regra de três
e seja o que Deus quiser!

(Stella Araujo)